11 de mar de 2011

Na Natureza Selvagem - Livro


Quem já viu o filme Na Natureza Selvagem, dirigido maravilhosamente por Sean Penn, não deixa de se impressionar profundamente com o jovem Chris McCandless, interpretado também maravilhosamente por Emile Hirsch.
Esse jovem de família rica, depois de terminar a faculdade com brilhantismo, doa todo o dinheiro que tem, abandona o carro e a maioria dos seus pertences, adota outro nome e cai na estrada, sem nunca mais dar notícias aos pais. Dois anos depois aparece morto num lugar ermo e gelado do Alasca.
O autor, Jon Krakauer, que também foi um jovem aventureiro que arriscou sua vida inúmeras vezes escalando montanhas do Alasca, busca decifrar o enigma que foi Chris McCandelss: quem era e o que queria o jovem inteligente, equilibrado e rico, que largou a família e tudo o mais para viver maltrapilho, passando fome e pedindo carona pelas estradas, para no fim morrer de inanição no Alasca.
O autor refaz os passos de MaCandless e revela o mundo instável das pessoas que vivem à margem da sociedade americana, caroneiros, aventureiros, contestadores, desajustados e marginalizados.
Busca na história da família do rapaz possíveis causas para os seus atos.
Mostra a beleza da pequena sociedade rural, um mundo de pessoas simples que encantavam o idealista Chris. Mostra também a histórias de outros aventureiros que, como Chris, encontraram a morte ao buscar a transformação espiritual através da vida no mato, no meio da natureza selvagem.
O livro é como um documentário, mas com elementos de um romance de ficção. E a história é muito linda e triste. Se Chris tivesse tido um pouquinho mais de juízo teria saído da sua aventura ileso.
Eu não consigo compreender Chris McCandless. Sua família também não e sofre profundamente até hoje. Mas uma coisa eu tenho certeza, ele não era um suicida. Talvez um pouco idealista e sonhador demais. Confiante além da conta em si mesmo, mas não era um suicida.
Agora não posso deixar de mencionar o fascínio que o livro (mas principalmente o filme) me traz sobre as paisagens do oeste americano. As descrições das montanhas, dos desertos, das estradas, das pequenas cidades, da Califórnia, tudo isso dá uma vontade muito grande de conhecer “a estrada” que encantou e seduziu Chris.
Abaixo alguns trechos do livro, principalmente das cartas enviadas por Chris àquelas pessoas com as quais queria se reencontrar caso saísse vivo do Alasca. Acho que são as palavras que nos dizem mais sobre ele.

27 de abril de 1992

Saudações de Fairbanks! Esta é última vez que você terá notícias minhas, Wayne. Cheguei aqui há dois dias. Foi muito difícil pegar carona no território de Yukon. Mas finalmente cheguei. Por favor, devolva toda a minha correspondência para os remetentes. Posso demorar muito até voltar para o sul. Se esta aventura se revelar fatal e você nunca mais tiver notícias de mim, quero que saiba que você é um grande homem. Caminho agora para dentro da natureza selvagem. Alex.

CARTÃO POSTAL RECEBIDO POR WAYNE WESTERBERG
EM CARTAGO, DAKOTA DO SUL

Trecho do livro:

Àquela altura, Chris partira havia muito tempo. Cinco semanas antes, enfiara todas as suas coisas em seu pequeno carro e zarpara para o oeste, sem destino. A viagem seria uma odisséia no pleno sentido do termo, uma jornada épica que mudaria tudo. Ele passara os quatro anos anteriores, tal como via as coisas, preparando-se para cumprir um dever oneroso e absurdo: graduar-se na faculdade. Finalmente estava desimpedido, emancipado do mundo sufocante de seus pais e pares, um mundo de abstração, segurança e excesso material, um mundo em que ele se sentia dolorosamente isolado da pulsação vital da existência.
Saindo de Atlanta para o oeste, pretendia inventar uma vida totalmente nova para si mesmo, na qual estaria livre para mergulhar na experiência crua, sem filtros. Para simbolizar o corte completo com sua vida anterior, adotou um nome novo. Não mais atenderia por Chris McCandless; era agora Alexander Supertramp, senhor de seu próprio destino.

TRECHOS DA LONGA CARTA ENVIADA POR CHRIS A RONALDE FRANZ EM ABRIL DE 1992.

Ron, eu realmente gostei de toda a ajuda que você me deu e do tempo que passamos juntos. Espero que não fique muito deprimido com a nossa separação. Pode lavar um bom tempo até que a gente se veja de novo. Mas desde que eu saia inteiro desse negócio do Alasca você terá noticias minhas no futuro. Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: acho que você deveria realmente promover uma mudança radical em seu estilo de vida e começar a fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar. Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do home que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente Sol. Se você quer mais da sua vida, Ron, deve abandonar sua tendência à segurança monótona e adotar um estilo de vida confuso que, de início, vai parecer maluco para você. Mas depois que se acostumar a tal vida verá seu sentido pleno e sua beleza incrível.
(...)
Espero que da próxima vez que o encontrar você seja um homem novo, com uma grande quantidade de noves aventuras e experiências na bagagem. Não hesite nem se permita dar desculpas. Simplesmente saia e faça isso. Você ficará muito contente por ter feito.

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